quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Os cinco mil e quatrocentos momentos do jogo

 

O decidir aqui e agora, sabendo que a ligação entre o Zé e o Frederico é mais importante que qualquer um deles.




O Futebol é um desporto colectivo. Nas modalidades individuais a performance depende do indivíduo, essencialmente da sua qualidade enquanto praticante de um qualquer desporto. No Futebol, a performance da equipa é superior ou inferior à soma da qualidade e da performance dos jogadores, e a razão é muito simples: esta depende em 99,9% das da relação dinâmica entre os diferentes elementos. É a qualidade desta relação que determina a performance da equipa, e não somente a qualidade dos elementos que a constituem. Obviamente, a qualidade individual dos jogadores tem influência naquela que é a relação entre estes.
 


Já agora, acho importante perceber-se o intuito que dou à qualidade individual de um jogador. Essencialmente: a técnica (o toque de Bola, a relação pura entre a Bola e o jogador, a habilidade que o jogador tem para manobrá-La), o passe (a apetência que o jogador tem de fazê-La chegar do ponto A ao ponto B, com a velocidade e com a trajectória desejada – e aqui podemos incluir também o remate), o físico (capacidade de se movimentar, com maior ou menor velocidade, com maior ou menor agilidade; e ainda a força/ potência), a táctica (a inteligência com que o jogador, enquanto elemento único, individual, se insere num sistema vivo e dinâmico – a equipa), a criatividade (o entendimento e compreensão do jogo). A qualidade é isto tudo, e não cada uma destas coisa, para que se perceba.
 
 
 
E o que é que faz com que esta relação seja de qualidade? Para mim, há dois pressupostos fundamentais: perceber a corda e conhecer os gajos que puxam a corda. Metaforicamente isto é, entender a ideia de jogo, o fio condutor que guia logicamente a maneira com que os elementos agem e interagem; e compreender os colegas, as suas características, os ingredientes que moldam a sua qualidade individual, incluindo a táctica e a criatividade, que me parecem ser as mais difíceis de antecipar. Ora estes dois pressupostos desenvolvem-se sobretudo a jogar – a falar também, mas sobretudo a jogar principalmente no treino onde o contexto de tomada de decisão é mais facilmente controlado, mas também no jogo onde a imprevisibilidade e a competitividade expõem manifestamente as características dos elementos.  

 
"Em termos organizacionais, estruturamos a nossa equipa
definindo princípios para os quatro momentos de jogo, a saber:
 ataque, defesa, transições para ataque e para a defesa." (Carvalhal, 2010)

 











 

É no treinar e na necessidade de fazer entender o fio condutor e de desconfigurar o todo em partes para que se as possa trabalhar mais especificamente, que surgem os tão aclamados momentos do jogo. Tradicionalmente são 4, o ataque e a defesa organizada, e as transições ofensivas e defensivas. Há ainda um velho profeta milionário da Amadora que diz que ninguém se lembrou, mas que ele, enquanto criava a sua ciência, descobriu que havia um 5º momento do jogo: os esquemas tácticos ou bolas paradas para os mais ignorantes (como eu). Ataque organizado, o momento em que se tem a Bola e o adversário está atrás da linha da mesma, esperando cautelosamente que nos aproximemos da sua baliza. Defesa organizada, o oposto. As transições, vulgarmente caracterizadas como o momento de perda ou recuperação da Bola. E as bolas paradas, os momentos em que ninguém A pode disputar até que o jogador decida o que fazer e volte a pô-La em jogo. Assim dividem o jogo, achando que as tomadas de decisão podem ser agregadas e tipificadas mediante estas 5 diferentes ocasiões.

 

O que têm em comum esses momentos em que querem “separar”o jogo? A Bola. Ou se A tem, ou não se A tem. Ou se A perde, ou se A recupera. Portanto, tentando aproximar-me da interpretação tradicional do jogo, seguindo a minha maneira de vê-lo, parece-me que há essencialmente dois momentos no jogo. Quando temos a Bola, ou quando não temos a Bola. Ainda assim não estou satisfeito. Não é isto.

 



 Primeiro que tudo, a necessidade que está na génese desta classificação não faz sentido. O jogo é complexo, e embora o treino me permita, de certa forma, controlar os contextos eu não me posso afastar daquilo que é o jogo, uma complexidade de acontecimentos sucessivos. Se se preparar um treino com exercícios de organização defensiva e depois se fizer exercícios de saída rápida para o ataque, é porque não se percebe que a ligação entre as duas situações é tão ou mais complexa que cada uma delas individualmente (e aqui estou a dizer que são duas situações, quando na verdade são dezenas). Fraccionar o jogo em momentos diferentes ou em situações estanques faz com que se vá formatando o jogador e a sua forma de pensar, e isso dificulta o seu entendimento da rede de acontecimentos sucessivos e imprevisíveis que é o jogo.










 

 
 

O jogo é uma longa-metragem de suspense em que repetidamente o imprevisível acontece. Em que em cada momento se é pedido para que o jogador resolva uma situação, que decida individualmente. São portanto muitos, os momentos de decisão, assim como o contexto que os envolve. Poder-se-iam agrupar em pequenos conjuntos momentos que ao longo do jogo têm um contexto muito semelhante, mas ainda assim seriam muitos para que os pudéssemos treinar, ou preparar. Porque a zona do terreno em que se A perde, os jogadores que se tem a dar apoio, o resultado, a condição física, o tempo de jogo, o adversário, o estado do terreno são variáveis que não controlamos, que nos dão um enorme número de casos que não conseguimos prever. Assim, faz-me sentido que se prepare o jogador para qualquer contexto em que tenha de tomar a decisão. E como tomada de decisão entende-se todas as acções que o jogador desenvolve em campo, quer seja: decidir pressionar mais alto, fazer contenção dando o espaço exterior, saltar ou não saltar, passar para A ou B, marcar o livre rápida ou calmamente, cruzar ao 1º ou ao 2º poste, chutar para a frente ou para fora, etc. Mas em cada momento, as decisões individuais que cada elemento tem que tomar têm pouca expressão, enquanto actos isolados. Essas cinco mil e quatrocentas decisões, segundo a segundo, ganham forma e dimensão é no colectivo.

 

Tem que se desenvolver a táctica e guiar a criatividade de um jogador para que ele analize as situações correctamente e crie a melhor solução. Importa realçar que guiar a criatividade é diferente de definir caminhos aos jogadores (aquele velho método do “pára tudo”, volta lá atrás, não tens que passar a bola para aí, tens que virar o jogo para o Zé!). Guiar é fazê-los chegar à conclusão de que o resultado de outras soluções é melhor ou pior, e o porquê.

 

Assim sendo, o que me parece é que dos 5400 momentos do jogo, se podem organizar dois grupos, ao nível de tomadas de decisão: quando se tem e quando não se tem a Bola! A partir daí é construir uma forma de pensar o jogo, amadurecer o conhecimento sobre os outros elementos e desenvolver a capacidade de não só analisar, segundo a segundo, o contexto da tomada de decisão, como também criar as melhores soluções tendo em conta a forma de pensar o jogo e o conhecimento sobre os outros elementos. Ou seja, mais do que dizer aos jogadores que têm de passar a Bola ao Zé ou ao Frederico quando estão na zona do campo X, ou que se tem de virar o jogo se estiver um grande aglomerado de jogadores, tem que se ser capaz de dar-lhes a responsabilidade de decidir, mediante a sua análise da situação, desenvolvendo-lhes a táctica e domesticando-lhes a criatividade, sem nunca esquecer que há sempre uma importante dose de anarquia criativa que faz do jogo o espetáculo que é.

 

* Brevemente: Modelo de jogo, o ovo e a galinha.