O decidir aqui e agora, sabendo que a ligação entre o Zé e o Frederico é mais importante que qualquer um deles.
O
Futebol é um desporto colectivo. Nas modalidades individuais a performance
depende do indivíduo, essencialmente da sua qualidade enquanto praticante de um
qualquer desporto. No Futebol, a performance da equipa é superior ou inferior à
soma da qualidade e da performance dos jogadores, e a razão é muito simples:
esta depende em 99,9% das da relação dinâmica entre os diferentes elementos. É
a qualidade desta relação que determina
a performance da equipa, e não somente a qualidade dos elementos que a
constituem. Obviamente, a qualidade individual dos jogadores tem influência naquela
que é a relação entre estes.
Já
agora, acho importante perceber-se o intuito que dou à qualidade individual de um jogador. Essencialmente: a técnica (o toque de Bola, a relação
pura entre a Bola e o jogador, a habilidade que o jogador tem para manobrá-La),
o passe (a apetência que o jogador
tem de fazê-La chegar do ponto A ao ponto B, com a velocidade e com a
trajectória desejada – e aqui podemos incluir também o remate), o físico (capacidade de se movimentar,
com maior ou menor velocidade, com maior ou menor agilidade; e ainda a força/
potência), a táctica (a inteligência
com que o jogador, enquanto elemento único, individual, se insere num sistema
vivo e dinâmico – a equipa), a criatividade
(o entendimento e compreensão do jogo).
A qualidade é isto tudo, e não cada uma destas coisa, para que se perceba.
E
o que é que faz com que esta relação seja de qualidade? Para mim, há dois pressupostos
fundamentais: perceber a corda e conhecer os gajos que puxam a corda.
Metaforicamente isto é, entender a ideia de jogo, o fio condutor que guia
logicamente a maneira com que os elementos agem e interagem; e compreender os
colegas, as suas características, os ingredientes que moldam a sua qualidade
individual, incluindo a táctica e a
criatividade, que me parecem ser as mais difíceis de antecipar. Ora estes
dois pressupostos desenvolvem-se sobretudo a
jogar – a falar também, mas sobretudo a jogar
– principalmente no treino onde o
contexto de tomada de decisão é mais facilmente controlado, mas também no jogo
onde a imprevisibilidade e a competitividade expõem manifestamente as
características dos elementos.
"Em termos organizacionais, estruturamos a nossa equipa
definindo
princípios para os quatro momentos de jogo, a saber:
ataque, defesa, transições
para ataque e para a defesa." (Carvalhal, 2010)
É
no treinar e na necessidade de fazer entender o fio condutor e de desconfigurar
o todo em partes para que se as possa trabalhar mais especificamente, que
surgem os tão aclamados momentos do
jogo. Tradicionalmente são 4, o ataque e a defesa organizada, e as
transições ofensivas e defensivas. Há ainda um velho profeta milionário da
Amadora que diz que ninguém se lembrou, mas que ele, enquanto criava a sua
ciência, descobriu que havia um 5º momento do jogo: os esquemas tácticos ou bolas
paradas para os mais ignorantes (como eu). Ataque organizado, o momento em que se
tem a Bola e o adversário está atrás da linha da mesma, esperando
cautelosamente que nos aproximemos da sua baliza. Defesa organizada, o oposto.
As transições, vulgarmente caracterizadas como o momento de perda ou
recuperação da Bola. E as bolas paradas, os momentos em que ninguém A pode disputar
até que o jogador decida o que fazer e volte a pô-La em jogo. Assim dividem o
jogo, achando que as tomadas de decisão podem ser agregadas e tipificadas
mediante estas 5 diferentes ocasiões.
O
que têm em comum esses momentos em que querem “separar”o jogo? A Bola. Ou se A
tem, ou não se A tem. Ou se A perde, ou se A recupera. Portanto, tentando
aproximar-me da interpretação tradicional do jogo, seguindo a minha maneira de
vê-lo, parece-me que há essencialmente dois momentos no jogo. Quando temos a Bola, ou quando não temos a Bola.
Ainda assim não estou satisfeito. Não é isto.
Primeiro que tudo, a necessidade que está na génese desta classificação não faz sentido. O jogo é complexo, e embora o treino me permita, de certa forma, controlar os contextos eu não me posso afastar daquilo que é o jogo, uma complexidade de acontecimentos sucessivos. Se se preparar um treino com exercícios de organização defensiva e depois se fizer exercícios de saída rápida para o ataque, é porque não se percebe que a ligação entre as duas situações é tão ou mais complexa que cada uma delas individualmente (e aqui estou a dizer que são duas situações, quando na verdade são dezenas). Fraccionar o jogo em momentos diferentes ou em situações estanques faz com que se vá formatando o jogador e a sua forma de pensar, e isso dificulta o seu entendimento da rede de acontecimentos sucessivos e imprevisíveis que é o jogo.
O
jogo é uma longa-metragem de suspense em que repetidamente o imprevisível
acontece. Em que em cada momento se é pedido para que o jogador resolva uma
situação, que decida individualmente. São portanto muitos, os momentos de
decisão, assim como o contexto que os envolve. Poder-se-iam agrupar em pequenos
conjuntos momentos que ao longo do jogo têm um contexto muito semelhante, mas
ainda assim seriam muitos para que os pudéssemos treinar, ou preparar. Porque a
zona do terreno em que se A perde, os jogadores que se tem a dar apoio, o
resultado, a condição física, o tempo de jogo, o adversário, o estado do
terreno são variáveis que não controlamos, que nos dão um enorme número de
casos que não conseguimos prever. Assim, faz-me sentido que se prepare o
jogador para qualquer contexto em que tenha de tomar a decisão. E como tomada
de decisão entende-se todas as acções que o jogador desenvolve em campo, quer
seja: decidir pressionar mais alto, fazer contenção dando o espaço exterior,
saltar ou não saltar, passar para A ou B, marcar o livre rápida ou calmamente,
cruzar ao 1º ou ao 2º poste, chutar para a frente ou para fora, etc. Mas em
cada momento, as decisões individuais que cada elemento tem que tomar têm pouca
expressão, enquanto actos isolados. Essas cinco mil e quatrocentas decisões,
segundo a segundo, ganham forma e dimensão é no colectivo.
Tem
que se desenvolver a táctica e guiar
a criatividade de um jogador para
que ele analize as situações correctamente e crie a melhor solução. Importa
realçar que guiar a criatividade é diferente de definir caminhos aos jogadores
(aquele velho método do “pára tudo”, volta lá atrás, não tens que passar a bola
para aí, tens que virar o jogo para o Zé!). Guiar é fazê-los chegar à conclusão
de que o resultado de outras soluções é melhor ou pior, e o porquê.
Assim
sendo, o que me parece é que dos 5400 momentos do jogo, se podem organizar dois
grupos, ao nível de tomadas de decisão: quando se tem e quando não se tem a
Bola! A partir daí é construir uma forma de pensar o jogo, amadurecer o
conhecimento sobre os outros elementos e desenvolver a capacidade de não só analisar,
segundo a segundo, o contexto da
tomada de decisão, como também criar as melhores soluções tendo em conta a
forma de pensar o jogo e o conhecimento sobre os outros elementos. Ou seja,
mais do que dizer aos jogadores que têm de passar a Bola ao Zé ou ao Frederico
quando estão na zona do campo X, ou que se tem de virar o jogo se estiver um
grande aglomerado de jogadores, tem que se ser capaz de dar-lhes a
responsabilidade de decidir, mediante a sua análise da situação, desenvolvendo-lhes
a táctica e domesticando-lhes a criatividade, sem nunca esquecer que há sempre
uma importante dose de anarquia criativa que faz do jogo o espetáculo que é.
* Brevemente: Modelo de
jogo, o ovo e a galinha.


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