quarta-feira, 11 de junho de 2014

Entre Linhas e Parágrafos

  «Uma das chaves do sucesso no Futebol moderno.»



O Futebol tem vindo a evoluir e muito, nas últimas décadas. Já estamos perante gerações (atentemos aos craques neste Mundial) que cresceram nas academias, e não tanto nas ruas. Cresceram numa ambiente mais formal e menos criativo. Mais metodológico e menos espontâneo. E isso traz consequências para os jogadores e simultaneamente para o jogo. As condições quer de treino quer de prática melhoraram: as bolas são mais leves, as chuteiras e os equipamentos mais confortáveis, os terrenos mais regulares e os ginásios melhor apetrechados. O conhecimento científico ao nível biológico e físico aprofundou-se: os preparadores físicos estão mais bem preparados, a recuperação física e a o desenvolvimento muscular mais desenvolvidos e a alimentação mais enriquecida (pelo menos em termos energéticos). O estudo do Futebol difundiu-se: estuda-se mais o jogo, discutem-se mais os porquês e os comos, aplica-se mais tecnologia e inova-se mais nos processos.



Os jogadores perderam em criatividade, mas ganharam em conhecimento táctico e em condições físicas. Qual é o balanço? É irrelevante para se discutir o jogo. É este que temos de analisar e sobre este que temos de reflectir e concluir. Aqui, quero discutir aquele que considero ser um dos factores-chave para o sucesso no futebol moderno: jogar entre linhas. É um factor que urge analisar e concluir sobre ele, pois pode ser o clique para a melhoria de toda a dinâmica de uma equipa nos dias de hoje.



Jogar entre linhas significa receber e controlar a bola (ser activo) entre duas linhas formadas por adversários, muito genericamente. Podem nem ser duas linhas, pode ser um triângulo ou um trapézio. A essência do seu significado é ter a bola numa zona protegida e controlada pelo adversário, principalmente pela sua superioridade numérica.




E de onde surge a necessidade de jogar com qualidade entre linhas? Esta é causada por uma das mais importantes mudanças que se tem vindo a verificar no futebol: o posicionamento defensivo. Tem havido uma clara alteração das referências nos momentos do jogo em que não se tem a bola. Outrora observava-se uma marcação homem a homem e um jogo de pares muito rígido e bem definido durante grande parte dos jogos. Hoje em dia esta ideia está a ser radicalmente alterada, das referências individuais está-se a passar para uma matriz de referências zonais, segundo as quais se passam a preencher determinadas zonas que têm como principal referência o espaço e não o adversário. Isto faz com que os jogos sejam cada vez mais jogos de xadrez onde o metro quadrado é cada vez mais caro, o que obriga à criação de novas soluções.




É que reparem, num jogo de duplas, o facto de um ou vários jogadores arrastarem o adversário para uma zona do campo longe da posse de bola, faz com que o seu colega que a transporta tenha apenas o adversário directo como oposição. Ora se resolvesse esta situação numa acção puramente individual, como um drible ou uma finta, o jogador teria depois metros livres para progredir. Agora, os movimentos de arrastamento perderam valor, porque o adversário não nos segue, nem desmonta o seu posicionamento (ou pelo menos não tão facilmente). E se o ultrapassarmos teremos com certeza, outro imediatamente a seguir na cobertura.



























O que é então jogar entre linhas? Para mim, jogar entre linhas é como uma lide a pé. Ou se está pressionado e precisamos de ganhar espaço, ou se quer progredir para zonas que estão bem protegidas pelo adversário e temos de as “destapar”. As desmarcações sem bola para os arrastar são quase inúteis, como disse. Então, já que não os conseguimos atrair sem, vamos fazê-lo com a bola! E qual é a melhor forma de os atrair? De os fazer sentir que se nos atacarem naquele momento nos vão “vencer”, fazendo-os virem atrás de nós? É entrar no seu território, dentro do bloco, entre linhas. Aí o adversário julga-se dominante (e é superior, pelo menos em número de jogadores). Ganha confiança para fazer uma pressão mais activa, para nos desarmar. E quando ele está prestes a espetar-nos os cornos, nós saímos dessa zona e vamos percorrer o seu território por outros caminhos. Território este que entretanto encolheu, o que deixa assim mais espaço e tempo para tomarmos decisões nas suas imediações.



Jogar entre linhas serve de isco, altera o foco da zona para o portador da bola. O que se tiver sequência numa rápida circulação da bola poderá levar à exploração de espaços vazios.





Observando a sequência de imagens do jogo entre Blaugranas e Merengues - e sem julgar o posicionamento da equipa de branco – vemos uma situação em que a equipa sem bola apresenta um bloco pouco compacto, mas com referências muito fortes (a distância entre os jogadores é similar e os espaço para o adversário relativamente reduzido). Este posicionamento vinca bem a tal zona de protecção a que me referi em cima. Os jogadores à esquerda do portador têm relativamente pouco espaço para receber a bola confortavelmente. O jogador mais à esquerda é o que tem mais espaço, o que é compreensível visto que é o que se encontra mais longe do centro de decisão. Tal como é previsível que os dois jogadores à direita do portador não tenham qualquer espaço, por se encontrarem mais perto da zona activa do jogo. O passe para trás seria a decisão mais simples e confortável de tomar. Permitiria ganhar mais tempo para construir e teria pouco risco. No entanto, tem a grande desvantagem de dar ao adversário metros para subir e se afastar da sua baliza, compactando as linhas. 






O portador procura então a solução dentro do bloco e encontra-a no jogador mais avançado. Passa-lhe a bola e quando esta a recebe, automaticamente o foco dos adversários passa a ser o portador da bola, e não tanto a zona. (Repare-se nas deslocações de praticamente todos os jogadores.) A agressividade aumenta, assim como a tensão para desarmar, o que leva ao encolher da zona de protecção. De notar que o jogador que recebe dentro do bloco, não procura uma decisão muito arriscada nem sequer muito criativa, apenas serve de apoio (e isco) para depois procurar tirar a bola do bloco de forma jogável. 







Como consequência, os Culés ganharam espaço não só para os jogadores à esquerda do portador, como também para os jogadores mais à direita. Até o jogador mais à direita na imagem ganha metros para a poder receber confortavelmente. Assim como o jogador imediatamente à esquerda do portador que, se receber a bola, tem espaço para progredir e enfrentar a última linha do adversário.




Claro que toda esta dinâmica que acabo de analisar dura 3,4, 5 ou 6 segundos, mas é este tipo de movimento que permite esticar e encolher o bloco defensivo à medida que precisamos de encontrar novos espaços, novas soluções para criar algo melhor.





Não quero deixar de frisar que este jogo entre linhas é o melhor calmante para a pressão do adversário. Melhor do que jogar para trás, como se possa pensar. É que se o adversário for coeso no momento de pressionar e bem organizado e sincronizado ao nível das coberturas, circular a bola pelos defesas fará com que o bloco adversário suba, e que o espaço que nos faltava mais à frente possa vir a faltar mais atrás. Reparem no exemplo das Águias, na final da Liga Europa. A bola vem da esquerda e é recebida pelo interior. Se o trinco Encarnado tomasse a decisão mais banal, a de dar um apoio lateral, onde coloco o ponto de interrogação, o portador teria duas opções: ou passava para o central ou lhe entregava a bola. E se assim fosse, os Blues não teriam dificuldade de em poucos segundos subiriam a linha de pressão e levariam os Encarnados para uma decisão de recurso. No entanto, o jogador sinalizado (o trinco), percebe que existe um espaço entre as duas primeiras linhas de pressão do adversário, e posiciona-se dentro desse espaço. O passe para que a bola lhe chegue é mais arriscado, porque passa no meio de dois adversários, porque é mais complexo em termos de coordenação de movimentos. Contudo, este passe tem como consequência o alertar do adversário, que fará com que desça e compacte o bloco. O jogador que iniciou o lance ganhará margem para receber de novo e o próprio central ganhou o dobro do espaço para receber, percepcionar e decidir se a bola lhe for entregue.





























Mas há um ponto importante que vem à baila com este exemplo. É que este tipo de acções não é fácil de executar. Não só o passe, mas também a recepção e a orientação da bola são complexas, porque tem-se jogadores adversários por todos lados. Porque é que cada vez mais se ouve dizer que os jogadores mais baixos são os que melhor se adaptam ao jogo moderno? Ora, esta é uma das principais razões, no meu entender. São os jogadores cujas características lhes permitem, quer ao nível do passe, quer ao nível da recepção e coordenação motora, jogar dentro de espaços com tensão alta no qual se exige agilidade de movimento e rapidez de decisão. O David, o Jack, o Luka, o Andrés, o Samir, o Mario e o Eden, são para mim os melhores exemplos da actualidade.




Ser capaz de jogar dentro de bloco, por entre as garras do adversário sem nunca as deixar tocar-nos, constantemente e com a temporização certa, é o clique que poderá permitir a qualquer equipa passar para um patamar superior de criação de melhores soluções.




É, para mim, um dos segredos do futebol moderno...




* Brevemente: Uma (boa)zona, é o que se quer.

terça-feira, 18 de março de 2014

Modelo de Jogo, o ovo e a galinha

«Isoladas não têm expressão, essas cinco mil e quatrocentas decisões, segundo a segundo, ganham forma e dimensão é no colectivo»





O Modelo de Jogo é um guia. Um holofote que ilumina o caminho, mas ilumina um caminho suficientemente amplo para que a "anarquia criativa faça do Jogo o espectáculo que é". O Modelo é uma orientação, que orienta a tomada de decisão com um objectivo muito pragmático: aproximar todas as decisões individuais para que convirjam numa decisão colectiva, simultânea.




  "Não é uma questão de 4-4-2 ou 4-2-3-1, é uma questão de ter uma equipa ordenada, 
em que os jogadores se relacionam uns com os outros, 
que se movimentam juntos, como se fossem um único jogador"

(Arrigo Sacchi, 2011)



O Modelo não é um manual de acções, reacções ou comportamentos mecânicos que os jogadores terão de cumprir. O Modelo de Jogo de uma equipa é um conjunto de ideias que deverão ser assumidas por todos - desde o Guarda-Redes ao Preparador Físico - mas sobretudo compreendidas. A tomada de decisão é o mais difícil que há no Futebol, ainda para mais quando são onze pessoas diferente que as têm de tomar constantemente sem terem qualquer ligação psicológica entre elas. Ora, o Modelo surge como o farol que os ilumina e orienta.



Na minha perspectiva de construção de Modelo de Jogo está subjacente um fundamento hierárquico. As ideias de jogo que uma equipa partilha não têm todas a mesma importância, até porque não é plausível que um jogador, num contexto complexo e exigente de tomada de decisão, se deixe influenciar por muitas directrizes. Há ideias que são essenciais. Estas deverão ser linhas mais gerais, as mais importantes. São aquelas que nunca mudam e que são omnipresentes. Ideias que têm de estar no subconsciente dos jogadores em todos os momentos. São os Princípios do Modelo de Jogo! Depois vai-se especificando. Desenvolvem-se os subprincípios, e os subprincípios dos subprincípios. Estes já são conceitos que se vão moldando ao longo da época, e que a pouco e pouco vão fazendo parte da "rotina decisional" dos jogadores. Eventualmente, até poderão sofrer pequenas alterações com o evoluir da equipa ou mesmo devido a alguma decisão estratégica relevante.



  "Jogar como equipa é ter (...) determinadas regularidades que fazem com que (...) 
todos os jogadores pensem em função da mesma coisa ao mesmo tempo"

(José Mourinho, 2006)




Na sua génese, o Modelo de Jogo não tem nada a ver com sistemas, geometria ou estratégias. E o mais evidente é que com o mesmo Modelo de Jogo se pode dispor os jogadores de formas diferentes pelo campo, e com a mesma disposição dos jogadores pelo campo há equipas com Modelos completamente diferentes! Eu não sou hipócrita para dizer que o sistema não importa, claro que importa. As referências posicionais dos jogadores poderão permitir executar melhor este ou aquele tipo de ideias. MAS, não é o mais importante! De longe. O mais importante é o sentido que se dá à tomada de decisões, seja ele qual for o sistema.








  "Eu primeiro crio o meu Modelo de Jogo e depois vou à procura dos jogadores 
que se enquadrem dentro desta minha forma de pensar. Mas chegaste a um clube (...)
e não pudeste ir buscar jogadores nenhuns, tiveste de trabalhar com aqueles. 
Eu onde chego (...) olho para os jogadores todos, olho para as características de todos, 
e eles têm que entrar dentro do meu Modelo de Jogo e têm de jogar dentro das ideias 
que eu crio para o Modelo de Jogo e para o Modelo de jogador (...) "

(Jorge Jesus, 2013)



Esclarecida que está a minha visão do que é o Modelo de Jogo, imagino que já se perguntaram se nunca mais falo da galinha que pôs o ovo ou do ovo de onde saiu a galinha? Pois bem, o que me inspirou a falar deste assunto, do Modelo de Jogo, foi uma matéria que está na origem da preparação de uma equipa, no início da época, no início da caminhada. Parece não lhe ser dada uma relevância condizente mas esta questão está no topo, no que a Filosofia Futebolística diz respeito. Definir o Modelo de Jogo em função dos jogadores que temos à disposição ou adaptar os jogadores ao Modelo de Jogo idealizado. Esta é uma questão pertinente, mas tem sobretudo a ver com a forma como se está e vê o Futebol, o treino e o sucesso. É ainda, e não menos importante, uma questão de liderança. 



 "No processo há muitas dúvidas, muitíssimas, afinal o que vale a pena 
é a convicção de ter uma ideia clara onde te agarrares, e dizer, 
isto é o que em verdadeiramente acredito. Os jogadores não são estúpidos. 
Se te vêm duvidar, atropelam-te. Os Futebolistas são intuição pura. 
Cheira-lhes a sangue, e quando te vêm débil espetam-te a faca."

(Pep Guardiola, 2013)


Por tudo o que já defendi é fácil prever a minha escolha. O Modelo está ligado aos óculos com que o treinador vê e entende que é o Jogo. A estética que lhe parece ser a mais espectacular e simultaneamente a que o aproxima mais de ganhá-lo. Assim, não é previsível que se altere seja qual for o grupo de jogadores que se tem à disposição. Ou as ideias são frágeis, ou não são suportadas, caso contrário serão robustas o suficiente para que resistam a detalhes (que não deixam de ter relevância, mas ainda assim secundária) como as características individuais dos jogadores. Não é difícil identificar treinadores de gabarito - como o Félix de Setúbal - que não as têm. Ou pelo menos, consideram que o outro caminho pode levá-los ao sucesso mais rapidamente. Admito com toda a honestidade e humildade que no curto prazo é plausível que a adaptação do Modelo aos jogadores poderá ter maior sucesso, tudo por uma questão de simplificação e transmissão da mensagem. Mas é minha convicção que no médio-longo prazo este tipo de abordagem não tenha alcance. Ao longo de um caminho longo e duro como é o treino e a organização de uma equipa durante uma época, se não se trabalhar segundo ideias fortes e sustentadas, as fragilidades que virão ao cimo durante o processo, poderão pô-lo em risco. E aqui surge a importância da liderança...







Como é que se pode treinar e preparar os jogadores para apresentarem uma determinada regularidade de comportamentos (decisões) se não é aquilo em que acreditamos? Ou então, como se pode mostrar-lhes um caminho que não se sabe explicar a razão que o leva a ser melhor que os outros? E se eles perguntarem porque é que em vez de irmos pela auto-estrada, não vamos pela nacional?


A minha escolha é firme: um treinador deve agarrar-se à sua perspectiva em relação ao Futebol, às suas ideias do que é ou como deve ser jogado o Jogo. Os subprincipios e os subprincipios dos subprincipios são mais flexíveis e podem adaptar-se, e adaptam-se durante o processo, mas as linhas gerais não. As ideias fundamentais não. E é uma das tarefas mais apaixonantes no desporto colectivo, no Futebol: fazer os jogadores acreditar nessas ideias, convencê-los de que o nosso caminho é o melhor. Claro que há pessoas neste mundo que são (e serão sempre) as melhores a fazer isto - como o Félix de Setúbal. Depois é preciso aliar a esta capacidade de liderança, a capacidade de ter e escolher os melhores jogadores, e a capacidade de transmitir e operacionalizar as ideias que se vai construindo.

Mas sobretudo, ter melhores ideias e convicções, que os outros. Por isso é que o Futebol se reinventou, e se reinventará continuamente.


Porque não é Ciência, é Arte...



* Brevemente: Jogar entre linhas, e parágrafos.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Os cinco mil e quatrocentos momentos do jogo

 

O decidir aqui e agora, sabendo que a ligação entre o Zé e o Frederico é mais importante que qualquer um deles.




O Futebol é um desporto colectivo. Nas modalidades individuais a performance depende do indivíduo, essencialmente da sua qualidade enquanto praticante de um qualquer desporto. No Futebol, a performance da equipa é superior ou inferior à soma da qualidade e da performance dos jogadores, e a razão é muito simples: esta depende em 99,9% das da relação dinâmica entre os diferentes elementos. É a qualidade desta relação que determina a performance da equipa, e não somente a qualidade dos elementos que a constituem. Obviamente, a qualidade individual dos jogadores tem influência naquela que é a relação entre estes.
 


Já agora, acho importante perceber-se o intuito que dou à qualidade individual de um jogador. Essencialmente: a técnica (o toque de Bola, a relação pura entre a Bola e o jogador, a habilidade que o jogador tem para manobrá-La), o passe (a apetência que o jogador tem de fazê-La chegar do ponto A ao ponto B, com a velocidade e com a trajectória desejada – e aqui podemos incluir também o remate), o físico (capacidade de se movimentar, com maior ou menor velocidade, com maior ou menor agilidade; e ainda a força/ potência), a táctica (a inteligência com que o jogador, enquanto elemento único, individual, se insere num sistema vivo e dinâmico – a equipa), a criatividade (o entendimento e compreensão do jogo). A qualidade é isto tudo, e não cada uma destas coisa, para que se perceba.
 
 
 
E o que é que faz com que esta relação seja de qualidade? Para mim, há dois pressupostos fundamentais: perceber a corda e conhecer os gajos que puxam a corda. Metaforicamente isto é, entender a ideia de jogo, o fio condutor que guia logicamente a maneira com que os elementos agem e interagem; e compreender os colegas, as suas características, os ingredientes que moldam a sua qualidade individual, incluindo a táctica e a criatividade, que me parecem ser as mais difíceis de antecipar. Ora estes dois pressupostos desenvolvem-se sobretudo a jogar – a falar também, mas sobretudo a jogar principalmente no treino onde o contexto de tomada de decisão é mais facilmente controlado, mas também no jogo onde a imprevisibilidade e a competitividade expõem manifestamente as características dos elementos.  

 
"Em termos organizacionais, estruturamos a nossa equipa
definindo princípios para os quatro momentos de jogo, a saber:
 ataque, defesa, transições para ataque e para a defesa." (Carvalhal, 2010)

 











 

É no treinar e na necessidade de fazer entender o fio condutor e de desconfigurar o todo em partes para que se as possa trabalhar mais especificamente, que surgem os tão aclamados momentos do jogo. Tradicionalmente são 4, o ataque e a defesa organizada, e as transições ofensivas e defensivas. Há ainda um velho profeta milionário da Amadora que diz que ninguém se lembrou, mas que ele, enquanto criava a sua ciência, descobriu que havia um 5º momento do jogo: os esquemas tácticos ou bolas paradas para os mais ignorantes (como eu). Ataque organizado, o momento em que se tem a Bola e o adversário está atrás da linha da mesma, esperando cautelosamente que nos aproximemos da sua baliza. Defesa organizada, o oposto. As transições, vulgarmente caracterizadas como o momento de perda ou recuperação da Bola. E as bolas paradas, os momentos em que ninguém A pode disputar até que o jogador decida o que fazer e volte a pô-La em jogo. Assim dividem o jogo, achando que as tomadas de decisão podem ser agregadas e tipificadas mediante estas 5 diferentes ocasiões.

 

O que têm em comum esses momentos em que querem “separar”o jogo? A Bola. Ou se A tem, ou não se A tem. Ou se A perde, ou se A recupera. Portanto, tentando aproximar-me da interpretação tradicional do jogo, seguindo a minha maneira de vê-lo, parece-me que há essencialmente dois momentos no jogo. Quando temos a Bola, ou quando não temos a Bola. Ainda assim não estou satisfeito. Não é isto.

 



 Primeiro que tudo, a necessidade que está na génese desta classificação não faz sentido. O jogo é complexo, e embora o treino me permita, de certa forma, controlar os contextos eu não me posso afastar daquilo que é o jogo, uma complexidade de acontecimentos sucessivos. Se se preparar um treino com exercícios de organização defensiva e depois se fizer exercícios de saída rápida para o ataque, é porque não se percebe que a ligação entre as duas situações é tão ou mais complexa que cada uma delas individualmente (e aqui estou a dizer que são duas situações, quando na verdade são dezenas). Fraccionar o jogo em momentos diferentes ou em situações estanques faz com que se vá formatando o jogador e a sua forma de pensar, e isso dificulta o seu entendimento da rede de acontecimentos sucessivos e imprevisíveis que é o jogo.










 

 
 

O jogo é uma longa-metragem de suspense em que repetidamente o imprevisível acontece. Em que em cada momento se é pedido para que o jogador resolva uma situação, que decida individualmente. São portanto muitos, os momentos de decisão, assim como o contexto que os envolve. Poder-se-iam agrupar em pequenos conjuntos momentos que ao longo do jogo têm um contexto muito semelhante, mas ainda assim seriam muitos para que os pudéssemos treinar, ou preparar. Porque a zona do terreno em que se A perde, os jogadores que se tem a dar apoio, o resultado, a condição física, o tempo de jogo, o adversário, o estado do terreno são variáveis que não controlamos, que nos dão um enorme número de casos que não conseguimos prever. Assim, faz-me sentido que se prepare o jogador para qualquer contexto em que tenha de tomar a decisão. E como tomada de decisão entende-se todas as acções que o jogador desenvolve em campo, quer seja: decidir pressionar mais alto, fazer contenção dando o espaço exterior, saltar ou não saltar, passar para A ou B, marcar o livre rápida ou calmamente, cruzar ao 1º ou ao 2º poste, chutar para a frente ou para fora, etc. Mas em cada momento, as decisões individuais que cada elemento tem que tomar têm pouca expressão, enquanto actos isolados. Essas cinco mil e quatrocentas decisões, segundo a segundo, ganham forma e dimensão é no colectivo.

 

Tem que se desenvolver a táctica e guiar a criatividade de um jogador para que ele analize as situações correctamente e crie a melhor solução. Importa realçar que guiar a criatividade é diferente de definir caminhos aos jogadores (aquele velho método do “pára tudo”, volta lá atrás, não tens que passar a bola para aí, tens que virar o jogo para o Zé!). Guiar é fazê-los chegar à conclusão de que o resultado de outras soluções é melhor ou pior, e o porquê.

 

Assim sendo, o que me parece é que dos 5400 momentos do jogo, se podem organizar dois grupos, ao nível de tomadas de decisão: quando se tem e quando não se tem a Bola! A partir daí é construir uma forma de pensar o jogo, amadurecer o conhecimento sobre os outros elementos e desenvolver a capacidade de não só analisar, segundo a segundo, o contexto da tomada de decisão, como também criar as melhores soluções tendo em conta a forma de pensar o jogo e o conhecimento sobre os outros elementos. Ou seja, mais do que dizer aos jogadores que têm de passar a Bola ao Zé ou ao Frederico quando estão na zona do campo X, ou que se tem de virar o jogo se estiver um grande aglomerado de jogadores, tem que se ser capaz de dar-lhes a responsabilidade de decidir, mediante a sua análise da situação, desenvolvendo-lhes a táctica e domesticando-lhes a criatividade, sem nunca esquecer que há sempre uma importante dose de anarquia criativa que faz do jogo o espetáculo que é.

 

* Brevemente: Modelo de jogo, o ovo e a galinha.

 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O que separa a Ciência da Arte.

Parece um desporto muito complexo. Mas não o é, é simples. Ou então não.


Comecemos pelo principio. 
                                                                                    "Desporto em que 22 jogadores, divididos em dois campos, se esforçam por introduzir uma  bola na baliza do campo adversário, sem intervenção das mãos(...)" [Priberam]

Para já, não é um desporto. Futebol não é um desporto qualquer. Se excluirmos os norte-americanos, algumas povoações da Antárctida e porventura alguns povos do norte do globo, o Futebol é o desporto predilecto dos seres, quer humanos ou não (acredito). 

       
                                                                  
                                                           







     Arte " (…)actividade humana (…) realizada a partir da percepção, das emoções e das ideias, (…)
dando um significado único e diferente para cada obra" [Wikipedia]
                                                                               






Acima de tudo, é um espectáculo. Um espectáculo que concorre com o circo, com o cinema ou com a música. Este é o ponto de partida, e é muito importante para se perceberem os pontos de vista que vou assumir de agora em diante, nesta tresloucada viagem pelo Futebol.

                                                                                                      Ciência "Conjunto de conhecimentos fundados sobre princípios certos" [Priberam]


E tal como em todos os outros espectáculos, o que os precede e mesmo aquilo em consistem pode ser bem ou mal feito. Independentemente de gostos, de preferências, ou mesmo de gostos e preferências. Apesar de preferir filmes de suspense a filmes de acção, o meu leigosismo permite-me analisar a qualidade do que é feito, tanto nos primeiros como nos segundos. Do bolo que é a análise, os tais gostos e preferências serão sempre uma grande fatia, claro está.  É isso que separa a arte da ciência. O que separa a arte da ciência, porventura o mesmo que separa o sucesso do insucesso de um qualquer velho profeta milionário da Amadora que se diz inventor de uma ciência. O Futebol não tem uma ciência, quanto mais exacta.

                                                                    
Aqui irei desmontar todos os assuntos ligados ao jogo. Desmontar no sentido de analisar. Não se pense já que vou começar a dissecar sobre o radiador, o motor ou o sistema de travagem. A única coisa que irei desmontar é o jogo, e o jogar. O jogar que para mim (e é isso que separa a arte da ciência) é o que dá mais espectáculo, e o que é melhor. Melhor porque não só é o que penso dar mais espectáculo, como também o que me permite estar mais perto do meu objectivo.

                                                                                      "O objectivo do jogo (futebol) é marcar utilizando qualquer parte do corpo excepto os braços e as mãos introduzindo a bola na baliza adversária" [Wikipedia]


O que é que se quer afinal? O mesmo que em todos os desportos colectivos que se baseiem num sistema de pontuação: pontuar mais que o adversário. É que marcar golos com “qualquer parte do corpo” é necessário, mas não é suficiente. Marcar mais golos que o adversário é única maneira de se ganhar sempre. É necessário, e suficiente. (Esqueçam lá as eliminatórias a duas mãos, vá lá. Isso é uma parte tão pequena das competições em que se joga este jogo.)

Isto é o básico, mas complexo. Depois vem a arte: “se não se sofrer, está-se mais perto de ganhar; ou, não interessa quantos golos sofro, desde que marque mais”. Elas não são mutuamente exclusivas, embora pareçam. Parecem discutir o ‘futebol defensivo’ e o ‘futebol ofensivo’. Como fosse possível para alguém escolher entre os dois. Quase como se instituísse dois desportos diferentes. A escolha é muito mais complexa, e simples.


“Se se jogar bem, está-se mais perto de ganhar”.



É mais ou menos isto. É mais por aqui do que por ali, atrás. Ganhar por ganhar, não é bem aquilo com que eu me identifico. Mas não sou hipócrita, e percebo. Porque também tenho preferências clubistas, e também sou irracional. E faccioso. E são-no também 99,9% das pessoas que falam de futebol todos os dias. Mas não é disso que se trata, aqui. De certo modo, esta minha paixão (estúpida – não por ser estúpida, mas por ser irracional) sobrepõe-se cada vez menos à outra paixão, pela arte. E é por isso que escrevo.


Tal e qual como nas empresas. As promoções, o preço e as vendas são o hoje, não são o amanhã. Os golos, os pontos e as vitórias são o hoje, não são o amanhã. Uns ficam na história, por isso. Os outros fazem história. Ganhar por ganhar só faz sentido pela paixão estúpida. Mas não sou hipócrita, e sei que o futebol é uma indústria, e sei dos milhões e dos biliões. E que é preciso hoje, para haver amanhã. Mas isso fica para os velhos profetas milionários da Amadora que querem fazer ciência.


Tem de se ir para além disso, muito além disso, para se fazer arte…


* Brevemente: Os cinco mil e quatrocentos momentos do jogo.