Parece um
desporto muito complexo. Mas não o é, é simples. Ou então não.
Comecemos pelo principio.
"Desporto
em que 22 jogadores, divididos em dois campos, se esforçam por introduzir uma
bola na baliza do campo adversário, sem intervenção das mãos(...)"
[Priberam]
Para já, não é um desporto. Futebol não é um desporto qualquer. Se excluirmos os norte-americanos, algumas povoações da Antárctida e porventura alguns povos do norte do globo, o Futebol é o desporto predilecto dos seres, quer humanos ou não (acredito).
dando um significado
único e diferente para cada obra" [Wikipedia]
Acima de tudo, é um espectáculo. Um espectáculo que concorre com o circo, com o cinema ou com a música. Este é o ponto de partida, e é muito importante para se perceberem os pontos de vista que vou assumir de agora em diante, nesta tresloucada viagem pelo Futebol.
Ciência "Conjunto de conhecimentos fundados sobre princípios certos" [Priberam]
E tal como em todos os outros espectáculos, o que os precede e mesmo aquilo em consistem pode ser bem ou mal feito. Independentemente de gostos, de preferências, ou mesmo de gostos e preferências. Apesar de preferir filmes de suspense a filmes de acção, o meu leigosismo permite-me analisar a qualidade do que é feito, tanto nos primeiros como nos segundos. Do bolo que é a análise, os tais gostos e preferências serão sempre uma grande fatia, claro está. É isso que separa a arte da ciência. O que separa a arte da ciência, porventura o mesmo que separa o sucesso do insucesso de um qualquer velho profeta milionário da Amadora que se diz inventor de uma ciência. O Futebol não tem uma ciência, quanto mais exacta.
Aqui irei desmontar todos os assuntos ligados ao jogo. Desmontar
no sentido de analisar. Não se pense já que vou começar a dissecar sobre o
radiador, o motor ou o sistema de
travagem. A única coisa que irei desmontar é o jogo,
e o jogar. O jogar que para mim (e é isso
que separa a arte da ciência) é o que dá mais espectáculo, e o que é melhor. Melhor porque
não só é o que penso dar mais espectáculo, como também o que me permite estar mais
perto do meu objectivo.
"O objectivo do jogo
(futebol) é marcar utilizando qualquer parte do corpo excepto os braços e as
mãos introduzindo a bola na baliza adversária" [Wikipedia]
O que é que se quer afinal? O mesmo que em todos os desportos
colectivos que se baseiem num sistema de pontuação: pontuar mais que o
adversário. É que marcar golos com “qualquer parte do corpo” é necessário, mas
não é suficiente. Marcar mais golos que o adversário é única maneira de se
ganhar sempre. É necessário, e suficiente. (Esqueçam lá as eliminatórias a duas
mãos, vá lá. Isso é uma parte tão pequena das competições em que se joga este
jogo.)
Isto é o básico, mas complexo. Depois vem a arte: “se não se
sofrer, está-se mais perto de ganhar; ou, não interessa quantos golos sofro,
desde que marque mais”. Elas não são mutuamente exclusivas, embora pareçam.
Parecem discutir o ‘futebol defensivo’ e o ‘futebol ofensivo’. Como fosse
possível para alguém escolher entre os dois. Quase como se instituísse dois
desportos diferentes. A escolha é muito mais complexa, e simples.
“Se se jogar bem, está-se mais perto de ganhar”.
É mais ou menos isto. É mais por aqui do que por ali, atrás.
Ganhar por ganhar, não é bem aquilo com que eu me identifico. Mas não sou
hipócrita, e percebo. Porque também tenho preferências clubistas, e também sou
irracional. E faccioso. E são-no também 99,9% das pessoas que falam de futebol
todos os dias. Mas não é disso que se trata, aqui. De certo modo, esta minha paixão (estúpida – não por ser
estúpida, mas por ser irracional) sobrepõe-se cada vez menos à outra paixão,
pela arte. E é por isso que escrevo.
Tal e qual como nas empresas. As promoções, o preço e as vendas são o hoje, não são o amanhã. Os golos, os pontos e as vitórias são o hoje, não são o amanhã. Uns ficam na história, por isso. Os outros fazem história. Ganhar por ganhar só faz sentido pela paixão estúpida. Mas não sou hipócrita, e sei que o futebol é uma indústria, e sei dos milhões e dos biliões. E que é preciso hoje, para haver amanhã. Mas isso fica para os velhos profetas milionários da Amadora que querem fazer ciência.
Tem de se ir para além disso, muito além disso, para se fazer
arte…
* Brevemente:
Os cinco mil e quatrocentos momentos do jogo.

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