quarta-feira, 11 de junho de 2014

Entre Linhas e Parágrafos

  «Uma das chaves do sucesso no Futebol moderno.»



O Futebol tem vindo a evoluir e muito, nas últimas décadas. Já estamos perante gerações (atentemos aos craques neste Mundial) que cresceram nas academias, e não tanto nas ruas. Cresceram numa ambiente mais formal e menos criativo. Mais metodológico e menos espontâneo. E isso traz consequências para os jogadores e simultaneamente para o jogo. As condições quer de treino quer de prática melhoraram: as bolas são mais leves, as chuteiras e os equipamentos mais confortáveis, os terrenos mais regulares e os ginásios melhor apetrechados. O conhecimento científico ao nível biológico e físico aprofundou-se: os preparadores físicos estão mais bem preparados, a recuperação física e a o desenvolvimento muscular mais desenvolvidos e a alimentação mais enriquecida (pelo menos em termos energéticos). O estudo do Futebol difundiu-se: estuda-se mais o jogo, discutem-se mais os porquês e os comos, aplica-se mais tecnologia e inova-se mais nos processos.



Os jogadores perderam em criatividade, mas ganharam em conhecimento táctico e em condições físicas. Qual é o balanço? É irrelevante para se discutir o jogo. É este que temos de analisar e sobre este que temos de reflectir e concluir. Aqui, quero discutir aquele que considero ser um dos factores-chave para o sucesso no futebol moderno: jogar entre linhas. É um factor que urge analisar e concluir sobre ele, pois pode ser o clique para a melhoria de toda a dinâmica de uma equipa nos dias de hoje.



Jogar entre linhas significa receber e controlar a bola (ser activo) entre duas linhas formadas por adversários, muito genericamente. Podem nem ser duas linhas, pode ser um triângulo ou um trapézio. A essência do seu significado é ter a bola numa zona protegida e controlada pelo adversário, principalmente pela sua superioridade numérica.




E de onde surge a necessidade de jogar com qualidade entre linhas? Esta é causada por uma das mais importantes mudanças que se tem vindo a verificar no futebol: o posicionamento defensivo. Tem havido uma clara alteração das referências nos momentos do jogo em que não se tem a bola. Outrora observava-se uma marcação homem a homem e um jogo de pares muito rígido e bem definido durante grande parte dos jogos. Hoje em dia esta ideia está a ser radicalmente alterada, das referências individuais está-se a passar para uma matriz de referências zonais, segundo as quais se passam a preencher determinadas zonas que têm como principal referência o espaço e não o adversário. Isto faz com que os jogos sejam cada vez mais jogos de xadrez onde o metro quadrado é cada vez mais caro, o que obriga à criação de novas soluções.




É que reparem, num jogo de duplas, o facto de um ou vários jogadores arrastarem o adversário para uma zona do campo longe da posse de bola, faz com que o seu colega que a transporta tenha apenas o adversário directo como oposição. Ora se resolvesse esta situação numa acção puramente individual, como um drible ou uma finta, o jogador teria depois metros livres para progredir. Agora, os movimentos de arrastamento perderam valor, porque o adversário não nos segue, nem desmonta o seu posicionamento (ou pelo menos não tão facilmente). E se o ultrapassarmos teremos com certeza, outro imediatamente a seguir na cobertura.



























O que é então jogar entre linhas? Para mim, jogar entre linhas é como uma lide a pé. Ou se está pressionado e precisamos de ganhar espaço, ou se quer progredir para zonas que estão bem protegidas pelo adversário e temos de as “destapar”. As desmarcações sem bola para os arrastar são quase inúteis, como disse. Então, já que não os conseguimos atrair sem, vamos fazê-lo com a bola! E qual é a melhor forma de os atrair? De os fazer sentir que se nos atacarem naquele momento nos vão “vencer”, fazendo-os virem atrás de nós? É entrar no seu território, dentro do bloco, entre linhas. Aí o adversário julga-se dominante (e é superior, pelo menos em número de jogadores). Ganha confiança para fazer uma pressão mais activa, para nos desarmar. E quando ele está prestes a espetar-nos os cornos, nós saímos dessa zona e vamos percorrer o seu território por outros caminhos. Território este que entretanto encolheu, o que deixa assim mais espaço e tempo para tomarmos decisões nas suas imediações.



Jogar entre linhas serve de isco, altera o foco da zona para o portador da bola. O que se tiver sequência numa rápida circulação da bola poderá levar à exploração de espaços vazios.





Observando a sequência de imagens do jogo entre Blaugranas e Merengues - e sem julgar o posicionamento da equipa de branco – vemos uma situação em que a equipa sem bola apresenta um bloco pouco compacto, mas com referências muito fortes (a distância entre os jogadores é similar e os espaço para o adversário relativamente reduzido). Este posicionamento vinca bem a tal zona de protecção a que me referi em cima. Os jogadores à esquerda do portador têm relativamente pouco espaço para receber a bola confortavelmente. O jogador mais à esquerda é o que tem mais espaço, o que é compreensível visto que é o que se encontra mais longe do centro de decisão. Tal como é previsível que os dois jogadores à direita do portador não tenham qualquer espaço, por se encontrarem mais perto da zona activa do jogo. O passe para trás seria a decisão mais simples e confortável de tomar. Permitiria ganhar mais tempo para construir e teria pouco risco. No entanto, tem a grande desvantagem de dar ao adversário metros para subir e se afastar da sua baliza, compactando as linhas. 






O portador procura então a solução dentro do bloco e encontra-a no jogador mais avançado. Passa-lhe a bola e quando esta a recebe, automaticamente o foco dos adversários passa a ser o portador da bola, e não tanto a zona. (Repare-se nas deslocações de praticamente todos os jogadores.) A agressividade aumenta, assim como a tensão para desarmar, o que leva ao encolher da zona de protecção. De notar que o jogador que recebe dentro do bloco, não procura uma decisão muito arriscada nem sequer muito criativa, apenas serve de apoio (e isco) para depois procurar tirar a bola do bloco de forma jogável. 







Como consequência, os Culés ganharam espaço não só para os jogadores à esquerda do portador, como também para os jogadores mais à direita. Até o jogador mais à direita na imagem ganha metros para a poder receber confortavelmente. Assim como o jogador imediatamente à esquerda do portador que, se receber a bola, tem espaço para progredir e enfrentar a última linha do adversário.




Claro que toda esta dinâmica que acabo de analisar dura 3,4, 5 ou 6 segundos, mas é este tipo de movimento que permite esticar e encolher o bloco defensivo à medida que precisamos de encontrar novos espaços, novas soluções para criar algo melhor.





Não quero deixar de frisar que este jogo entre linhas é o melhor calmante para a pressão do adversário. Melhor do que jogar para trás, como se possa pensar. É que se o adversário for coeso no momento de pressionar e bem organizado e sincronizado ao nível das coberturas, circular a bola pelos defesas fará com que o bloco adversário suba, e que o espaço que nos faltava mais à frente possa vir a faltar mais atrás. Reparem no exemplo das Águias, na final da Liga Europa. A bola vem da esquerda e é recebida pelo interior. Se o trinco Encarnado tomasse a decisão mais banal, a de dar um apoio lateral, onde coloco o ponto de interrogação, o portador teria duas opções: ou passava para o central ou lhe entregava a bola. E se assim fosse, os Blues não teriam dificuldade de em poucos segundos subiriam a linha de pressão e levariam os Encarnados para uma decisão de recurso. No entanto, o jogador sinalizado (o trinco), percebe que existe um espaço entre as duas primeiras linhas de pressão do adversário, e posiciona-se dentro desse espaço. O passe para que a bola lhe chegue é mais arriscado, porque passa no meio de dois adversários, porque é mais complexo em termos de coordenação de movimentos. Contudo, este passe tem como consequência o alertar do adversário, que fará com que desça e compacte o bloco. O jogador que iniciou o lance ganhará margem para receber de novo e o próprio central ganhou o dobro do espaço para receber, percepcionar e decidir se a bola lhe for entregue.





























Mas há um ponto importante que vem à baila com este exemplo. É que este tipo de acções não é fácil de executar. Não só o passe, mas também a recepção e a orientação da bola são complexas, porque tem-se jogadores adversários por todos lados. Porque é que cada vez mais se ouve dizer que os jogadores mais baixos são os que melhor se adaptam ao jogo moderno? Ora, esta é uma das principais razões, no meu entender. São os jogadores cujas características lhes permitem, quer ao nível do passe, quer ao nível da recepção e coordenação motora, jogar dentro de espaços com tensão alta no qual se exige agilidade de movimento e rapidez de decisão. O David, o Jack, o Luka, o Andrés, o Samir, o Mario e o Eden, são para mim os melhores exemplos da actualidade.




Ser capaz de jogar dentro de bloco, por entre as garras do adversário sem nunca as deixar tocar-nos, constantemente e com a temporização certa, é o clique que poderá permitir a qualquer equipa passar para um patamar superior de criação de melhores soluções.




É, para mim, um dos segredos do futebol moderno...




* Brevemente: Uma (boa)zona, é o que se quer.

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