«Isoladas não têm expressão, essas cinco mil e quatrocentas decisões, segundo a segundo, ganham forma e dimensão é no colectivo»
O Modelo de Jogo é um guia. Um holofote que ilumina o caminho, mas ilumina um caminho suficientemente amplo para que a "anarquia criativa faça do Jogo o espectáculo que é". O Modelo é uma orientação, que orienta a tomada de decisão com um objectivo muito pragmático: aproximar todas as decisões individuais para que convirjam numa decisão colectiva, simultânea.
"Não é uma questão de 4-4-2 ou 4-2-3-1, é uma questão de ter uma equipa ordenada,
em que os jogadores se relacionam uns com os outros,
que se movimentam juntos, como se fossem um único jogador"
(Arrigo Sacchi, 2011)
O Modelo não é um manual de acções, reacções ou comportamentos mecânicos que os jogadores terão de cumprir. O Modelo de Jogo de uma equipa é um conjunto de ideias que deverão ser assumidas por todos - desde o Guarda-Redes ao Preparador Físico - mas sobretudo compreendidas. A tomada de decisão é o mais difícil que há no Futebol, ainda para mais quando são onze pessoas diferente que as têm de tomar constantemente sem terem qualquer ligação psicológica entre elas. Ora, o Modelo surge como o farol que os ilumina e orienta.
Na minha perspectiva de construção de Modelo de Jogo está subjacente um fundamento hierárquico. As ideias de jogo que uma equipa partilha não têm todas a mesma importância, até porque não é plausível que um jogador, num contexto complexo e exigente de tomada de decisão, se deixe influenciar por muitas directrizes. Há ideias que são essenciais. Estas deverão ser linhas mais gerais, as mais importantes. São aquelas que nunca mudam e que são omnipresentes. Ideias que têm de estar no subconsciente dos jogadores em todos os momentos. São os Princípios do Modelo de Jogo! Depois vai-se especificando. Desenvolvem-se os subprincípios, e os subprincípios dos subprincípios. Estes já são conceitos que se vão moldando ao longo da época, e que a pouco e pouco vão fazendo parte da "rotina decisional" dos jogadores. Eventualmente, até poderão sofrer pequenas alterações com o evoluir da equipa ou mesmo devido a alguma decisão estratégica relevante.
"Jogar como equipa é ter (...) determinadas regularidades que fazem com que (...)
todos os jogadores pensem em função da mesma coisa ao mesmo tempo"
(José Mourinho, 2006)
Na sua génese, o Modelo de Jogo não tem nada a ver com sistemas, geometria ou estratégias. E o mais evidente é que com o mesmo Modelo de Jogo se pode dispor os jogadores de formas diferentes pelo campo, e com a mesma disposição dos jogadores pelo campo há equipas com Modelos completamente diferentes! Eu não sou hipócrita para dizer que o sistema não importa, claro que importa. As referências posicionais dos jogadores poderão permitir executar melhor este ou aquele tipo de ideias. MAS, não é o mais importante! De longe. O mais importante é o sentido que se dá à tomada de decisões, seja ele qual for o sistema.
"Eu primeiro crio o meu Modelo de Jogo e depois vou à procura dos jogadores
que se enquadrem dentro desta minha forma de pensar. Mas chegaste a um clube (...)
e não pudeste ir buscar jogadores nenhuns, tiveste de trabalhar com aqueles.
Eu onde chego (...) olho para os jogadores todos, olho para as características de todos,
e eles têm que entrar dentro do meu Modelo de Jogo e têm de jogar dentro das ideias
que eu crio para o Modelo de Jogo e para o Modelo de jogador (...) "
(Jorge Jesus, 2013)
Esclarecida que está a minha visão do que é o Modelo de Jogo, imagino que já se perguntaram se nunca mais falo da galinha que pôs o ovo ou do ovo de onde saiu a galinha? Pois bem, o que me inspirou a falar deste assunto, do Modelo de Jogo, foi uma matéria que está na origem da preparação de uma equipa, no início da época, no início da caminhada. Parece não lhe ser dada uma relevância condizente mas esta questão está no topo, no que a Filosofia Futebolística diz respeito. Definir o Modelo de Jogo em função dos jogadores que temos à disposição ou adaptar os jogadores ao Modelo de Jogo idealizado. Esta é uma questão pertinente, mas tem sobretudo a ver com a forma como se está e vê o Futebol, o treino e o sucesso. É ainda, e não menos importante, uma questão de liderança.
"No processo há muitas dúvidas, muitíssimas, afinal o que vale a pena
é a convicção de ter uma ideia clara onde te agarrares, e dizer,
isto é o que em verdadeiramente acredito. Os jogadores não são estúpidos.
Se te vêm duvidar, atropelam-te. Os Futebolistas são intuição pura.
Cheira-lhes a sangue, e quando te vêm débil espetam-te a faca."
(Pep Guardiola, 2013)
Por tudo o que já defendi é fácil prever a minha escolha. O Modelo está ligado aos óculos com que o treinador vê e entende que é o Jogo. A estética que lhe parece ser a mais espectacular e simultaneamente a que o aproxima mais de ganhá-lo. Assim, não é previsível que se altere seja qual for o grupo de jogadores que se tem à disposição. Ou as ideias são frágeis, ou não são suportadas, caso contrário serão robustas o suficiente para que resistam a detalhes (que não deixam de ter relevância, mas ainda assim secundária) como as características individuais dos jogadores. Não é difícil identificar treinadores de gabarito - como o Félix de Setúbal - que não as têm. Ou pelo menos, consideram que o outro caminho pode levá-los ao sucesso mais rapidamente. Admito com toda a honestidade e humildade que no curto prazo é plausível que a adaptação do Modelo aos jogadores poderá ter maior sucesso, tudo por uma questão de simplificação e transmissão da mensagem. Mas é minha convicção que no médio-longo prazo este tipo de abordagem não tenha alcance. Ao longo de um caminho longo e duro como é o treino e a organização de uma equipa durante uma época, se não se trabalhar segundo ideias fortes e sustentadas, as fragilidades que virão ao cimo durante o processo, poderão pô-lo em risco. E aqui surge a importância da liderança...
Como é que se pode treinar e preparar os jogadores para apresentarem uma determinada regularidade de comportamentos (decisões) se não é aquilo em que acreditamos? Ou então, como se pode mostrar-lhes um caminho que não se sabe explicar a razão que o leva a ser melhor que os outros? E se eles perguntarem porque é que em vez de irmos pela auto-estrada, não vamos pela nacional?
A minha escolha é firme: um treinador deve agarrar-se à sua perspectiva em relação ao Futebol, às suas ideias do que é ou como deve ser jogado o Jogo. Os subprincipios e os subprincipios dos subprincipios são mais flexíveis e podem adaptar-se, e adaptam-se durante o processo, mas as linhas gerais não. As ideias fundamentais não. E é uma das tarefas mais apaixonantes no desporto colectivo, no Futebol: fazer os jogadores acreditar nessas ideias, convencê-los de que o nosso caminho é o melhor. Claro que há pessoas neste mundo que são (e serão sempre) as melhores a fazer isto - como o Félix de Setúbal. Depois é preciso aliar a esta capacidade de liderança, a capacidade de ter e escolher os melhores jogadores, e a capacidade de transmitir e operacionalizar as ideias que se vai construindo.
Mas sobretudo, ter melhores ideias e convicções, que os outros. Por isso é que o Futebol se reinventou, e se reinventará continuamente.
Porque não é Ciência, é Arte...
* Brevemente: Jogar entre linhas, e parágrafos.


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